Entrevista da mamãe à Tribuna Piracicabana

07 de Agosto de 2016 por João Umberto Nassif
Sempre fui uma lutadora, nunca tive medo
“Nasci em Piracicaba, no dia 04 de Agosto de 1928, na Avenida Independência, em frente ao Seminário Seráfico São Fidélis. Meu pai, Ludovico Canceliero, trabalhava na reforma do Seminário. A minha mãe era Maria Virginia Casonato Canceliero. Somos 9 filhos: Raul, Cecília, Adelina, Ângelo, Evaristo, Filomena, eu, Terezinha e Roselis.
Meu pai era ferreiro e trabalhava na empresa Krahenbuhl*, fazia todo tipo de ferragem e depois, passou a ter uma oficina no quintal. Ele fazia desde a roda até a montagem completa da carroça. Minha mãe, para ajudar meu pai, no começo lavou roupa.
Estudei no Grupo Escolar Barão do Rio Branco. Após concluir a 4ª. Série, ajudei a tomar conta de dois sobrinhos, que tinham perdido a mãe, minha cunhada Benedita, esposa do Raul. E por dois anos, o Rutênio e a Raquel ficaram morando em minha casa.
Ao completar 13 anos, fui aprender costura com minha irmã Adelina. Eu queria usar a máquina de costura, ela dizia que eu deveria primeiro aprender a fazer hachuras ou popularmente ‘achuriar’, fazer bainha, pregar botão, essas coisas. Eu a ajudava muito nas tarefas domésticas. Ela sempre foi um sonho de irmã. Lá permaneci até meus 15 anos. Meu irmão Ângelo trabalhava na ‘A Porta Larga’, e eu disse à minha mãe que queria trabalhar lá também. Com a interferência dele, aos 15 anos, fui ser balconista da ‘A Porta Larga’. Eu trabalhava na seção de miudezas, linha, botão, novelo. Éramos três mocinhas trabalhando em um balcão. Ela já era grande, considerada a maior loja da cidade. Quando completei 18 anos, fui fazer a minha carteira profissional em Campinas, pois em Piracicaba ainda não tinha como fazer. Lembro-me que fomos eu e a Terezinha Azevedo. Nós duas trabalhávamos na ‘A Porta Larga’. Fomos de trem, pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Estava trabalhando na loja, mas queria melhorar. Tentei entrar na loja Singer. E consegui! Sempre fui uma lutadora, nunca tive medo. Um dia eu li no jornal que no Colégio Piracicabano estavam precisando de uma secretária. Fui ver o que era. Fiz uma prova e fui aprovada. Passei a trabalhar lá. Meu serviço era calcular as médias das notas dos alunos da quarta série.
Depois, eu tive uma oferta de emprego, um serviço bem diferente. Raul Machado era médico pediatra. Uma conhecida de minha mãe havia lhe dito que Dr. Raul precisava de uma pessoa para ajudar no laboratório, ser atendente no consultório. O Raul procurou-me na minha casa. Minha mãe recomendou-me que eu fosse com minha irmã Cecília para ver o que o Raul queria. Ele contratou-me com um salário que era quase o dobro do que eu ganhava como atendente na loja. Eu fui. Não sabia nada do trabalho, em um ano, aprendi tudo. Fazia exames de urina, fezes, sangue, bacterioscopia (por exame baterioscópico compreendemos o exame microscópico do material).
Após feitos os procedimentos normais, o Dr. Raul verificava, acompanhava, via se tudo estava sendo feito da forma correta, fazíamos exame de tuberculose, tinha que coletar, colocar em uma lâmina, curar, secar, colocava óleo de cedro e verificava através do microscópio se tinha bacilo. Fazia exame de olho, para saber se o paciente poderia operar, se não tinha bacteroscopia. Eu ia à casa do doente para coletar sangue. Antes de começar a trabalhar no laboratório, Dr Raul me mandou para a Santa Casa, onde fiquei um mês trabalhando e aprendendo. Lá aprendi a fazer injeção, coletar sangue, a fazer pesquisa de albumina, glicose.
Eu tinha uns 20 anos de idade. Trabalhei no laboratório seis anos quando era solteira e seis anos depois de casada.
Conheci meu marido (Willians Antônio Harry Valentini) assim: eu era filha de Maria, na Igreja dos Frades. A Silvia (hoje minha cunhada), era minha amiga e namorava o irmão do Willians, o Wilson. Eles eram muito bonitos. Altos, tinham 1,80, naquele tempo usava-se paletó e chapéu. Na saída da Igreja dos Frades, encontramo-nos e o Willians veio conversar comigo. Naquele tempo íamos até o centro, quadrar o jardim. Um dia eu estava quadrando e ele veio falar comigo. Passamos a namorar. Quando fazia um mês de namoro, um dia eu perguntei a sua idade e ele disse que tinha 18 anos. Eu disse-lhe: ‘Então vamos terminar, eu tenho 20 anos’. Ele apenas disse que dois anos não significava diferença. Continuamos namorando por mais quatro anos. Meu pai dizia: “Moça tem que casar até 25 anos, senão não casa mais!” eu não queria ficar solteirona! Casamos no dia 26 de setembro de 1953, na Igreja dos Frades. Acho que foi Frei Estevão quem nos casou.

Passamos duas semanas em lua-de-mel em Santos. Fomos morar em uma casa na Rua Madre Cecília, o fogão era à lenha. A casa era novinha, fomos os seus primeiros moradores. O Willians era mecânico de tratores. Meu sogro, Gabriel Valentini, tinha uma oficina pra conserto de tratores e máquinas agrícolas na Rua Alferes. A oficina se chamava “Mecânica Irval”(Irval tem a origem em Irmãos Valentini).
Ângela e Gabriel Valentini
Eram quatro moços, quatro filhos, que trabalhavam lá. O setor passou por uma crise. Meu marido foi trabalhar como concursado na Escola de Agronomia – ESALQ, consertava tratores e quando o professor ia dar aulas de máquinas e equipamentos, meu marido era o assistente do professor.
Nesse período, casada, eu almoçava em casa, comia de marmita, porque continuava a trabalhar o dia todo no consultório, que ficava na Rua Rangel Pestana, próximo ao Colégio Piracicabano.
Tivemos oito filhos: Willians, Wilson, Maria Clara, Marcos, Walter, Maria Aparecida, Maria de Lourdes (Ude) e Maria Virginia.


Quando nasceu o primeiro filho, eu queria deixar o trabalho e o Dr. Raul me perguntou porque eu queria sair e eu lhe disse que era para olhar o meu filho. A coisa mais maravilhosa do mundo é ser mãe! Eu olhava-o no bercinho e chorava de dó em ter que deixá-lo para trabalhar. Raul perguntou-me: ‘E se a Lazinha for trabalhar para você?’ Ela era empregada da D. Helena, esposa do Raul. Ele mandou a Lazinha trabalhar em casa e eu permaneceria trabalhando no laboratório. A Lazinha era uma cabocla muito boazinha, trabalhou quatro anos comigo. Quando meu primeiro filho saiu do primário, pensei, agora ele vai trabalhar. Fui ver emprego para ele na Sapataria Santana. (Tinha falecido meu cunhado, Líbio Duarte. Ele era aviador, tinha taxi aéreo. Um dia ele foi levar um passageiro que ia a um casamento, era um fiscal do INPS. O tempo estava nublado, houve um acidente e morreram os três que estavam no avião. Minha irmã Rosélis - esposa dele - estava grávida. Ela era uma menina muito boa).
Fomos morar perto da minha mãe, eu sentia muita falta dela e com um financiamento da Caixa, construímos uma casa na Rua Santa Cruz, 1756.

Casa na Rua Santa Cruz
Quando tinha quatro filhos, o Dr. Raul achou que seria melhor eu dedicar-me à família.
E então passei a fazer bolos, minha amiga Terezinha Azevedo me ajudou muito com os salgados. Eu não sabia fazer coxinhas, croquetes. Uma das primeiras encomendas feitas por uma amiga foi de 100 croquetes, eles dançavam no prato! Eu fazia esfiha, era o meu forte no trabalho no fogão. Fazia para a Escola de Música, lá eu tinha meus filhos estudando. Hoje tenho dois filhos que são músicos profissionais. O Walter toca contrabaixo com mestrado nos Estados Unidos. A Maria Virginia foi à Itália para complementar estudos de viola barroca. Ver meus filhos todos formados, para uma mãe é uma tranquilidade. Eu faria tudo de novo!




(Publicação graças à dedicação da Tali, que digitou todo o texto)

Comentários

Cacá disse…
Essa entrevista ficou muito boa .... obrigada para Tali que digitou e para Ude que postou ... Saudades da mamãe ... ❤️❤️❤️

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