Quarentena - Caixa de documentos e fotos

Ontem li o relato da minha sobrinha Nina, sobre sua quarentena há alguns anos atrás, quando passou por uma tuberculose.
Fiquei pensando na minha mãe, e o quanto ela sofreu com aquele diagnóstico, porque a minha avó – mãe dela – morreu em decorrência da tuberculose. Eu deveria ter uns 4 anos quando a nonna faleceu, portanto não me lembro de nada. Só conheço a história.
Mas, veio um sentimento de gratidão para com a minha mãe, por pensar em como ela enfrentou algumas quarentenas com os seus oito filhos.
Duas especialmente ficaram muito marcadas em mim: a minha própria quarentena, quando aos 9/10 anos tive escarlatina – eu e o Marcos meu irmão abaixo de mim, fomos contaminados ao mesmo tempo. Hoje, analisando o cenário, nós dois estudávamos num colégio particular católico, onde hoje estuda o Giovanni, e tínhamos contato com crianças mais abastadas. Os demais filhos não tiveram escarlatina. A minha foi “mais forte” por assim dizer .... fiquei 40 dias isolada e em repouso, com muita febre. Essa epidemia veio trazida da Europa, assim me lembro. Lembro perfeitamente que a mamãe fazia roupinhas para as minhas bonecas; deixava mexer naquela caixa de madeira do papai onde ficavam alguns documentos e muitas fotografias .... eu adorava mexer naquela caixa .... acho que meu amor pelas fotografias vem de lá. De tanto ficar naquela cama, me lembro que descasquei a pintura da parede ao meu lado .....
A mamãe mantinha tudo devidamente separado e higienizado. Já pensou, uma casa com 9 pessoas, uma bebezinha (Ude) e um só banheiro? Mamãe esterilizava tudo! E essa quarentena me marcou sobre maneira porque seria a minha formatura de 4ª série . Naquela época tinha uma festa para comemorar essa formatura. Eu já tinha participado de muitos ensaios lá no salão de festas do colégio, mas , não pude ir a festa! Foi uma perda muito grande para mim....
A segunda quarentena que me lembro muito bem, foi quando a Ude teve Hepatite. Mamãe não sossegou enquanto não descobriu como a Ude contraiu a hepatite. Foi através de uma amiga minha de Itú, que veio passar final de semana em casa, e a mamãe descobriu que o irmão dela estava com hepatite – ela foi a portadora. Mais uma vez a mamãe deu aula de como proceder para que nenhum filho pegasse a tal hepatite. Isolou a Ude, fazia uma alimentação especial para ela, separou todos os utensílios, e esterilizava o banheiro (único na casa) toda vez que a Ude utilizasse. Tratou de imunizar todos os demais membros da família, através de uma injeção de gamaglobulina (quem não se lembra que o Walter desmaiou enquanto a mamãe aplicava a injeção???) . Estávamos na época da Páscoa, e a Ude não poderia comer chocolate, então a mamãe preparou uma cesta com doces – todos que a Ude pudesse comer – para todos nós, e disse que naquele ano deveríamos todos ficar unidos com a Ude, ninguém iria comer chocolate. Depois daquele ano, a tal cesta comunitária, de chocolates, bombons e balas se tornou a comemoração de Páscoa da nossa família.
Hoje, nessa nossa quarentena, tento manter a casa desinfetada o suficiente, pois, a Ude precisa sair para trabalhar. Tento rezar o suficiente para implorar que Deus tenha piedade de todos nós. Tento manter a calma o suficiente para não desabarmos todos. Todos estamos mais sensíveis e frágeis e eu, sentindo a falta da segurança, da confiança e do amor que a mamãe nos transmitiu durante nossas quarentenas. Sim, eu creio: Andrá Tutto bene!!!!!

Comentários

Ude disse…
Caiu um cisco aqui no meu olho.... Que amor de mãe nós tivemos....
Unknown disse…
Uau!!!! A irmã da blogueira também escreve bem pra caramba!!!!! Obg , sorelle!!!!! E de onde sera que vem a minha força pra levar o barco adiante???? Claro que é dela , lá em cima!!!!

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