Desapego


Há uns sete anos, fui madrinha de casamento de uma amiga querida junto com um primo dela. Na época, soube que ele morava numa aldeia, no Amazonas. Em janeiro desse ano, tive a oportunidade de revê-lo e vi algumas fotos da aldeia. Na hora quis escrever uma matéria, mas ele - muito humilde - ficou todo sem jeito. Sem delongas - e depois de muitos e-mails, consegui. E reproduzo aqui. A matéria foi publicada no JP dia 22/03/2009.

Um piracicabano que vive na taba

Ude Valentini
ude@jpjornal.com.br

Em setembro de 2000, o piracicabano Hilton Silva do Nascimento, o Kiko, 36, foi contratado por um ano, pela ONG (organização não-governamental) Centro de Trabalho Indigenista (CTI) como ecólogo responsável pela avaliação da situação dos recursos da fauna, em uma parte da Terra Indígena (TI) Vale do Javari, quando passou a conhecer o povo matis. Durante o período dos levantamentos ambientais, Kiko manteve longos contatos com vários matis e como conseqüência aprendeu a falar a sua língua, envolvendo-se com a situação do povo, suas dificuldades, problemas e demandas.
"Eles estavam procurando um professor que os ajudassem a aprender português e um pouco de matemática, para que conseguissem ter uma relação mais de igual com os comerciantes da cidades de Atalaia do Norte, que sempre os enganavam durante as suas transações comerciais: venda de galinhas, paneiros de farinha e compra de produtos que já havia se tornado dependentes como chinelo, sal, querosene para lamparina, gasolina para o motor, roupas, entre outros", explica. De acordo com ele, os matis queriam um professor "de longe" como eles mesmo diziam, já que os da região não conseguiam ficar muito tempo na aldeia porque "tinham muitos preconceitos contra os índios".
Kiko conta que, na verdade, eles queriam um professor que dançasse em suas festas, falasse sua língua, comesse suas comidas; uma pessoa que respeitasse suas diferenças culturais e soubesse valorizá-la como uma grande experiência e não como uma cultura menor. "Foi assim que comecei a enveredar pelo caminho da educação, aqui no caso, da educação escolar indígena. Foi junto ao povo matis que aprendi a ser professor, educador e alfabetizador", resume.
Quando encontrou a comunidade matis, Kiko acabou descobrindo uma escola que não funcionava com regularidade e onde, depois de anos, somente cerca de 20 jovens do sexo masculino tinham aprendido a ler, jovens que sentiam-se superiores aos outros por terem dominado o aprendizado dos "não-índios". "Aprender a língua, respeitar as dificuldades de uma sociedade onde todas as histórias são passadas de geração para geração pela oralidade e não por meio da escrita, respeitar certas características culturais — como a forte divisão sexual de trabalho, não misturando turma de mulheres com de homens — ou seja, entender e respeitar as características culturais que qualquer sociedade possui foram fundamentais para mudar essa situação", comenta.
Assim, após dois anos de trabalho, a leitura e a escrita já não eram mais algo mágico que muitos deles não conseguiam aprender. Tanto a geração mais velha quanto a mais nova desses primeiro jovens que tinham aprendido a ler, também já dominava a leitura e agora, pela primeira vez, um grupo de mulheres também tinha tido acesso a leitura e escrita.
Depois da atuação junto aos matis, o CTI percebeu que o povo kanamary também estava com muitas dificuldades em suas escolas, todas elas tendo professores indígenas da própria comunidade, uma determinação do governo, colocada em prática desde 2002. "Colocar professores indígenas era uma forma de que sua cultura e regras sociais fossem respeitadas na escola", observa. Diante dessa situação de dificuldade dos professores kanamary, Kiko e a professora Pollyana Mendonça fizeram um acompanhamento pedagógico dessas escolas: ver quais alunos já sabiam ler e quais eras as dificuldades, inclusive dos professores, no processo de ensino-aprendizagem. "O rio Itacoaí — que faz fronteira entre o Brasil e o Peru — possui três escolas, sendo que a primeira comunidade só foi alcançada após cinco dias de viagem, de canoa", conta.
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SATISFAÇÃO — Há inúmeros exemplos de situações ímpares que Kiko vive em seu dia-a-dia. Um deles, viveu com o pequeno Gilber Lopes Kanamary, 5, estudante da escola da comunidade do Irari 2, localizada na beira do rio Javari, fronteira do Brasil com o Peru, a 36 horas da cidade mais próxima, Atalaia do Norte. "O rio havia subido e para podermos chegar até a escola era necessário pegar uma canoa todos os dias. Um dia em que a maioria dos alunos já tinha cruzado o rio, subi em outra canoa e os adultos mandaram um dos alunos me ajudar. Ele rapidamente subiu na canoa e virou meu ‘piloto’. Ali estava ele ajudando a levar seu professor para a escola. Naquele momento, eu já não era mais o professor pois ele, um menino de cinco anos de idade, manejava o remo com uma experiência e conhecimento muito maiores que os meus. Nossas posições tinham se invertido: ele, com apenas cinco anos, é que era meu professor e me ensinava a maneira correta de remar".
Apesar de realizar esse trabalho na área de educação, Kiko continua atuando também como ecólogo, já que acompanha as questões ambientais e ameaças do entorno da Terra Indígena Vale do Javari. "Ajudar essas crianças que querem tanto aprender a ler e não conseguem é uma grande satisfação", enfatiza. Ele diz que nessas escolas — sem carteiras, lápis e cadernos, onde a casa de um professor vira a escola e que mesmo assim os alunos se esforçam muito para aprender a ler — pode-se presenciar a alegria de aprender e ter o prazer de ensinar. "O sorriso no rosto desses meninos que começam a perceber que são também capazes de ler é algo muito gratificante. Poder mostrar a eles que todos podem ler e escrever, e que nossas diferenças são apenas culturais, é maravilhoso".
Kiko ainda faz um alerta sobre o preconceito que os povos indígenas sofrem da parte dos "não-índios". "Ainda vivemos o mito colonial do índio nu, com cocar na cabeça. Ainda temos uma visão muito romântica e equivocada. Ninguém deixa de ser índio porque usa roupa, nenhuma cultura é reduzida a uma roupa. Nós também não vivemos mais como nossos pais, que não tinham internet, tv a cabo, celular e nem por isso deixamos de ser brasileiros. Em São Paulo ficamos fascinados pelos índios da Amazônia, mas não perguntamos pelos índios de São Paulo, uma das maiores populações indígenas do Brasil. Índios que, como no caso dos guarani do Pico do Jaraguá, em São Paulo, à beira da rodovia dos Bandeirantes, vivem em uma situação precária, em um minúsculo terreno que não permite mais fazer nem roça. Apesar de tudo isso, de estarem espremidos entre a Bandeirantes, casas caras e uma área de conservação ambiental, ainda falam a língua e tentam manter sua cultura, que não se reduz a vestir ou não vestir roupa. São Paulo também tem índios e a situação deles também é difícil".

Comentários

Chiz disse…
Fascinante. Pra que dizer mais?
Anônimo disse…
Té que enfim!!! Valeu a pena esperar! bjo
Anônimo disse…
'dorei.
Tem continuação?
Baccio
W

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