Santa Catarina 2


Equipe relata drama de Santa Catarina

Ude Valentini

O Estado de Santa Catarina amarga, há um mês, o resultado das fortes chuvas que assolaram a região do Vale do Itajaí, com centenas de mortes, milhares de desabrigados e muito prejuízo material. Mas quem esteve próximo dos atingidos pela tragédia, não consegue esquecer o que viu e, principalmente, do espírito de solidariedade que paira no estado. Este é o caso da equipe da Supricel Logística, que levou todo o material arrecadado na campanha do Jornal de Piracicaba, Piracicaba Solidária Sem Fronteiras. A pedido do JP, dois dos cinco membros da equipe relataram o que viveram durante o dia que permaneceram em Blumenau (SC).

Fiquei impressionado com o que vi

"Trabalho como coordenador operacional da região Sul da Logística Supricel e moro em Curitiba, no Paraná. Fiquei sabendo que iria acompanhar as carretas e o caminhão-baú com as doações da campanha que o Jornal de Piracicaba fez, de Curitiba até Blumenau (SC), onde descarregaríamos as doações no Parque Vila Germânica, na quarta-feira, dia 3. Esperei o dia todo os caminhões chegarem, mas como houve atrasos na viagem, devido a deslizamentos de terra em alguns pontos da estrada, eles só chegaram no final da tarde. Eu já tinha conversado com a organização da Vila Germânica e eles me informaram que só poderíamos descarregar com hora marcada. Marcamos para a quinta-feira, às 9h30. Então resolvemos que toda a equipe deveria passar a noite em Araquari (SC). Saí de casa às 5h e parti para Araquari; de lá fomos para Blumenau. Ao chegar na cidade, fiquei impressionado com o que vi. Isso porque entramos pelo lado, digamos, bonito da cidade. Não sabíamos como chegar ao parque, mas uma senhora, quando nos viu, já entrou em seu carro, ligou o pisca alerta e nos guiou. O que vi nos galpões da Vila Germânica foi maravilhoso, pois eram aproximadamente 1.000 pessoas, entre voluntários, soldados do Exército, policiais, todos envolvidos em separar e distribuir as doações vindas de todo país. Enquanto o pessoal descarregava as carretas, saí andando por Blumenau, pois tinha prometido ao Jornal de Piracicaba que faria algumas fotos. Só tomei consciência da seriedade da coisa quando vi um quarteirão arrasado, todas as casas foram invadidas pela terra que desceu do morro e a rua não existia mais, só um grande monte de terra. E olha que não estou falando de casas humildes, são casas muito boas. Conversei com os moradores. Aliás, eles estão tão carentes com essa tragédia toda, que basta a gente chegar perto para eles abrirem o coração. Contam tudo, mesmo sem a gente perguntar. Só de alguém ouvi-los parece que sentem-se melhores. Em uma das casas, atingida por uma pedra gigante, o morador me disse que não sairá dali porque mora no local há 24 anos. E os vizinhos são tão sensíveis que é na casa de um deles que o morador está hospedado. Um outro morador do morro disse que sempre tomou todos os cuidados com a sua queda d'água e ele acha que o problema aconteceu porque os que moram acima, não cuidam. Outro caso que me chamou muito a atenção foi o de uma casa que está "ilhada" porque na frente dela, há um barranco de dois metros de profundidade. O dono só consegue sair de lá com a ajuda de um vizinho, por meio de uma escada, essas de madeira mesmo. Não pode nem tirar os carros. E também vi uma caminhonete S10 totalmente destruída. Ela estava em frente da casa, na hora da chuva. Falei também com o pessoal da Defesa Civil de Blumenau e fiquei estarrecido: foram aproximadamente 3.000 deslizamentos de terra. Não estamos falando nem de três, nem de 30, mas de 3.000. Fico pensando que, quando sair do trabalho hoje, tenho para onde voltar. Mas quantos deles ficaram sem nada? Isso me entristece muito. Mas me lembro de toda a ajuda que vi lá e já me sinto melhor". (Leumar Antonio de Oliveira, 33)

Nunca imaginei que a situação era tão grave

"Nasci no Piauí e moro hoje em Brasília (DF), onde sou motorista da Supricel Logística. A viagem de Piracicaba até Blumenau (SC) foi bem lenta. Tivemos que parar algumas vezes porque o pessoal estava limpando a estrada e a parada maior foi perto de São José dos Pinhais (PR), quando ficamos três horas devido a um deslizamento de terra. O sentimento que tínhamos era o de chegar logo para retirar as doações das carretas e do caminhão-baú. Enquanto a minha carreta era descarregada, meus colegas saíram pela cidade e voltaram bobos com o que viram. Quando eu saí para dar uma olhada, vi muita coisa destruída. Tudo o que vi foi o suficiente para acreditar que estava diante de uma tragédia. Venho de uma região muito pobre, no Piauí, e houve época em que, na minha casa, só havia farinha e açúcar para comer. Ao ver todas aquelas cenas em Santa Catarina, me lembrei do passado e fiquei bastante emocionado. Nunca imaginei que a situação era tão grave. Fiquei pensando que graças a Deus estamos no Brasil. Se fosse em outro país, será que a ajuda seria tanta? No parque, a demonstração de solidariedade das pessoas era incrível. Uma senhora pediu para me dar um beijo de agradecimento. Ela estava lá em busca de água. Eu jamais imaginava que iria participar de alguma ação referente às chuvas de Santa Catarina. Fiquei extremamente feliz em poder ajudar. Se pudesse, sem dúvida voltaria para ajudar". (Paulo Roberto Araújo de Souza, 40)

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